vida sendo possível

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o espírito é de segunda-feira, mas a surpresa é isso: recomeçar, dar um passo a mais pode ser em qualquer tempo, mesmo agora, cinco pro meio-dia, minha vida sendo possível.

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e o universo desejando o passo adiante

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dedinho mindinho, meu e teu, colados uma ao outro, ligados em um presente que me transborda. o círculo, a terra, o vento, as raízes, os mantras, nossas crianças interiores brincando juntas e dentro de ti, para mim: entusiasmo. deus dentro de ti e de mim e o universo desejando o passo adiante. todo dia agradecer teu beijo, teu sorriso, tuas possibilidades de reinvenção e teu amor. eu danço com você o que você quiser dançar, sol-semente.

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ter vida pra viver. depois contar.

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todos as histórias de amor sem fim, que acabaram. todos os romances findados em rompantes. aquele tapa na cara dela que não dei, na cretina. a raiva que não consegui proferir ao babaca que me deixou plantada na calçada da vida com os braços cheios de planos. ah, eu tenho um milhão de melodramas pra te contar, mas tenho muito ainda te mostrar do que vivi! senta que te conto tudo, que te mostro as fotos, as cicatrizes, as manchas na pele, os cabelos já ficando brancos. dou play nas mais lindas e doloridas canções ouvidas. te apresento a melhor e mais bonita flor do meu jardim. compartilho experiências e vivencio meu calendae de afetos.

ter vida pra viver. depois contar.
depois te conto. agora estou ocupada vivendo.

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esperar a água correr na cumieira

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em vinte minutos essa proposta deverá estar finalizada e eu deverei me deitar naquela cama. naquele quarto fechado onde ela sente dores e pede o ar. em vinte minutos deverei esquecer meus dramas e parar de reclamar das coisas infindadas, engolir meu choro, trocar a água do cachorro, tentar não ligar o ventilador e me deitar. tentar sonhar, dormir, contar estrelas, ouvir o barulho da rua e esperar a água correr na cumieira torcendo para que não vaze para os lados e molhe todo o forro. sempre penso que os pedreiros não são otimistas com chuvas. em vinte minutos deverei sair dessa mídia social, beber os últimos duzentos ml’s de água que faltam para que meu corpo se revigore como manda a santa medicina hipocrática.

o tempo vai consumindo meus sonhos e não consigo tecer novos horizontes. é doença, amufinamento, fobia social, catástrofes emocionais, mudanças e transições. tudo junto, vinte minutos reverberando o sentido mais amplo de me esvair no esquecimento quase honesto e um tanto quanto absurdo dos que me sabem.

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As 4 Leis da Espiritualidade ensinadas na Índia

A primeira diz: “A pessoa que vem é a pessoa certa”.

Ninguém entra em nossas vidas por acaso. Todas as pessoas ao nosso redor, interagindo com a gente, têm algo para nos fazer aprender e avançar em cada situação.

A segunda lei diz: “Aconteceu a única coisa que poderia ter acontecido“.

Nada, absolutamente nada do que acontece em nossas vidas poderia ter sido de outra forma. Mesmo o menor detalhe. Não há nenhum “se eu tivesse feito tal coisa…” ou “aconteceu que um outro…”. Não. O que aconteceu foi tudo o que poderia ter acontecido, e foi para aprendermos a lição e seguirmos em frente. Todas e cada uma das situações que acontecem em nossas vidas são perfeitas.

A terceira diz: “Toda vez que você iniciar é o momento certo“.

Tudo começa na hora certa, nem antes nem depois. Quando estamos prontos para iniciar algo novo em nossas vidas, é que as coisas acontecem.
‘E a quarta e última afirma: “Quando algo termina, ele termina”.

Simplesmente assim. Se algo acabou em nossas vidas é para a nossa evolução. Por isso, é melhor sair, ir em frente e se enriquecer com a experiência. Não é por acaso que estamos lendo este texto agora. Se ele vem à nossa vida hoje, é porque estamos preparados para entender que nenhum floco de neve cai no lugar errado.

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a esperar as primeiras gotas de chuva

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o sono dos justos. de dentro da ostra desgastada de sol a esperar as primeiras gotas de chuva que muito em breve cairão. a formiga macho casou-se com o gafanhoto.
que seja perene, eu desejo.

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sobre a arte de ser prudente

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fiquei na janela, vidro aberto, vento-ventania-ventoinha e meu coração querendo saltar pela janela.
fechei o vidro: prudência.

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dos que se desesperam: é o mundo

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ventou forte e, além dos jambos avermelhados, caiu ao solo um ninho de bem-te-vi. bem-em-frente-da-varanda-da-alice. juntou as duas mãos e tentou proteger o pobre bichinho. teria nascido agora? teria sido obra de algum menino da vizinhança com baladeiras em punho? ainda existiriam baladeiras? aonde andaria a mãe do passarinho que piava um choro de solidão?! o que fazer com um passarinho tão pequenino.

ainda bem que havia ainda o ninho e toda a ideia de um berçário, de um útero, de uma casca protetora a aquecer a pelugem de quem se esgoela pedindo alimento. alice, o ninho e o pássaro. achou melhor nomeá-lo, dar-lhe logo um substantivo, ter lugar no mundo – é possível que dessa forma ele permaneça, seja forte, fará falta.

confortou-o, mas seu coração gritava o piado dos que se desesperam: é o mundo. passou a noite entre o velar do ninho e sua própria dor.

na manhã dominical, logo após as missas ouvidas pela tv na casa da vizinha a constatação: a vida é frágil.

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sem orientação alguma esperando o traçado

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dois cavalos – ou seriam dois pôneis? – presos, assim como nós, no engarrafamento da desembargador moreira observando o entardecer da cidade permanecidos desejosos – incluindo a gente – de chegar ao local de destino e deitarmo-nos para comer à sombra*.

luzes e buzinas giravam em um contornável problema que nos remete à terra-pátria de quinhentos e tantos anos além-mar. os cavalos – ou seriam dois pôneis? – sem ter como se segurarem naquela carroceria acoplada ao veículo branco, grande, de fabricação oriental. nós todos, cavalos – ou seriam pôneis? – e pessoas atrasadas, sem orientação alguma esperando o traçado de veículos e de caos que governa uma metrópoles.

 

*uma citação da banda letuce

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ao pé da porta da geladeira, proferiu um elogio

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deve-se acrescentar um litro de água, está escrito no pacotinho. minha avó sempre disse para colocar pelo menos uns 250 ml a mais, por causa do sal dessas coisas industrializadas, que é muito alto, minha filha. me ensinou também que se ficar muito insosso e com cara de nada, eu coloque uma colherinha de maisena pra voltar a ficar encorpado.

sempre obedeço as ordens das coisas todas: a panela, a água, tesoura cortando o pacotinho, mexe cinco minutos, ferve quinze minutos, matem a panela fechada mais dez minutos, servem os quatro pratos, come sempre pelas bordinhas, onde se está mais frio, nunca fazer barulho sorvendo o líquido e por aí vai.

sorvi. cada colherada da canja industrializada (que possivelmente terá colocado ovos de leite em pó) foram descendo goela abaixo e eu olhando para ele; ele calado, suado, ofegando a quentura dos aromas,  o vento frio, o pano de prato, o prato de plástico e a maisena embolotada ao arroz.

limpou a boca com o pano de prato que não desencarde nunca, nem com a kiboa mais poderosa do mundo. arrotou e, enquanto bebia água na boca da garrafa plástica, ao pé da porta da geladeira, proferiu um elogio:

tava até boazinha, essa canja.

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