desligando o piloto automático

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tinha pressa e era urgente. tudo pra ela era muito urgente. cruzou a cidade sob duas rodas. o vento a sacudir o cabelo, açoitar-lhe o rosto. as coisas todas atravessando pelos poros da pele dela. num fim de tarde urgente. porque tinha que parar de doer. porque tinha de ter clareza. porque ela precisava ser mais forte do que tudo. ela era mais forte do que tudo. as avenidas que sempre sorriem quando ela passa em seus dias azuis, não mais sorriam pra ela: havia uma verdade revelada entre carros e pessoas. um trânsito tão caótico dentro dela. uns atropelamentos, ultrapassagens, abarroamentos. o céu em tons de rosa e ela com a cabeça protegida. pensou que a vida era mesmo essa coisa deliciosa de percorrer a cidade numa moto. “vá ligeiro, mas vá direitinho! o senhor me entende, né?! eu estou numa situação em que não posso morrer! não posso morrer agora!!” as pessoas nas calçadas, nas faixas de segurança, nos transportes, os desastres, os semáforos, a paisagem, o itinerário, homens trabalhando na pista, redução de velocidade, sirenes de ambulâncias, limpadores de pára-brisas, acelerador. vida correndo pelas artérias da cidade. às vezes tudo junto, às vezes você está sozinho na faixa da esquerda. percebeu que a travessia de todas as coisas por seu corpo é mesmo essa vida atravancando a alma. se ela cai da moto, é paixão.

a gente vai passando por essa vida mesmo muito desprotegido. capacete devia ser era no peito.

Ah, mamãe, como pode um peixe vivo viver fora da água fria?!

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Hoje a saudade saiu rasgando meu peito, tomando.conta dos.meus suspiros, me levou aos.prantos com essa vontade física do teu abraço, da tua voz, do teu cheiro de cigarro, da tua.dancinha, de me chamar de teu anjinho… Ah, mamãe, como pode um peixe vivo viver fora da água fria?!

Te amo, querida mamita. Sinta isso, porque tô sentindo na alma que amor também dói, marca e amadurece.

Luz pra gente, meu filhote de leão.

Ilustração magnífica de Jessica Gabrielle.

A luz da sala estava acesa.

A luz da sala estava acesa.

Cinquenta e seis dias depois, coração na mão, observo – de fora – teu lugar, teu cotidiano, teus cachorros, os objetos, a rua e a luz da sala acesa. Estava tudo lá, inclusive você e sua risada, e seu cigarro na mão canhota a reclamar de algo com aquela cara de abuso de quem já acorda cansada com o dia de chuva fina e a repetição dos dias enfadonhos. Seu telefone tocaria, com a nova música da Marisa Monte, e eu te diria hum, olha só, tão antenada com a conectividade.

Olhei pela janela de vidro e não te vi, mas te reconheci. Eu te reconheço em tudo: quando mexo em meu cabelo, quando me olho no espelho e me vejo repetindo pensamentos/frases/trejeitos que seriam seus. Te reconheço em tudo, mamãe.

Daí de onde você está dá pra ouvir Legião Urbana?! Tá ouvindo junto comigo?! Eu escuto e espero a porta do quarto abrir e esperar indelicadamente você me fuzilar com a pergunta: com o que você está triste?! Eu lhe conheço: quando fica ouvindo Renato Russo é porque tá deprê. Talvez te abraçasse, talvez dissesse sai daqui, mãe…

Subi as escadas, quase sem respirar, não, você não estava ali. Foi preciso resolver as burocracias. Escuto que sou a sua cara e me arrepio. É, sou sim. Olho de soslaio a casa toda. Relembro cenas, arrumações, dias e cores. Volto a negociação e antes de sair descemos juntas os degraus. Olho outra vez a casa, a janela, os cachorros que me latem e sabem quem eu sou. A luz acesa, a rua vazia, os manguezais, a avenida, o vento no cabelo e essa saudade.

Dessa vez, a luz da sala estava acesa, mamãe.

coração na mão: nove de janeiro

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Hoje faço trinta e sete anos. Gosto da sensação de envelhecer, amadurecer, ver o tempo passar por mim.
Quem muito me conhece sabe do quanto adoro celebrar esse nove de janeiro, mas dessa vez será diferente.
A ausência física de mamãe e o inconsolo da perda desse meu grande amor, ainda tão impregnado, não me permitem deixar a alegria se achegar.
Coração na mão, saudade doída e o desejo do abraço e dos beijos abusados de mamita.
Aos queridos que nessa data me felicitam, peço – como presente – uma prece, um pensamento, uma oração, uma vibração emanada para que minha leonina preferida, a melhor mãe que eu poderia ter, esteja em paz.
Parabéns, mamãe, por esses trinta e sete anos de sabedorias e amor partilhados comigo.
‘Só o amor conhece o que é verdade.’

no desmantelo dos dias

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Um elo, uma árvore, um repouso, bons frutos, uma beleza indescritível, um azul preferido, uma marca, dna, uma coragem, uma leonina, a melhor mãe que eu poderia e quereria ter nessa passagem pela terra.

Dois mil e quinze, tu me roubastes metade de meu coração, mas ainda assim – por ela, por mim, pelos meus, pelo AMOR: sigo. E vivo. E voo.

Na pele, na alma, no coração: mamãe, meu flamboyant azul no desmantelo dos dias.

Amor, mamãe, nessa e em todas as outras passagens pelo planeta

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Há trinta dias meu amor partiu, mal consigo respirar, meu peito bate descompassado, ainda não consigo acreditar.

Há trinta dias me afogo em saudade e desespero e tudo tudo tudo o que faço me lembro dela.

Há trinta dias aprendi a rezar e pedir ajuda. Os dias correm e sinto uma força transformadora, bem aos poucos, se apossando de mim.

Há trinta dias descubro, com dor, que a passagem de mamãe pela minha vida, essa incrível existência de coragem e vida, me tornou essa pessoa que hoje sou: seus desdobramentos celulares do mais puro amor.

Amor, mamãe, nessa e em todas as outras passagens pelo planeta. AMOR.

o abraço nos será bem vindo nessa nova fase de recriação.

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ainda vivencio o pior dia de minha vida. nenhuma palavra, nem nenhum abraço me conforta. ainda isso, e por isso, essa certeza de saber que tudo o que precisamos é amor.

e todo o afeto que esse mais incrível ser me proporcionou nessa passagem me fez ser essa casa cheia de coragem e aconchego.

aos que puderem, quiserem, fizerem questão:
o abraço nos será bem vindo nessa nova fase de recriação.