ao pé da porta da geladeira, proferiu um elogio

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deve-se acrescentar um litro de água, está escrito no pacotinho. minha avó sempre disse para colocar pelo menos uns 250 ml a mais, por causa do sal dessas coisas industrializadas, que é muito alto, minha filha. me ensinou também que se ficar muito insosso e com cara de nada, eu coloque uma colherinha de maisena pra voltar a ficar encorpado.

sempre obedeço as ordens das coisas todas: a panela, a água, tesoura cortando o pacotinho, mexe cinco minutos, ferve quinze minutos, matem a panela fechada mais dez minutos, servem os quatro pratos, come sempre pelas bordinhas, onde se está mais frio, nunca fazer barulho sorvendo o líquido e por aí vai.

sorvi. cada colherada da canja industrializada (que possivelmente terá colocado ovos de leite em pó) foram descendo goela abaixo e eu olhando para ele; ele calado, suado, ofegando a quentura dos aromas,  o vento frio, o pano de prato, o prato de plástico e a maisena embolotada ao arroz.

limpou a boca com o pano de prato que não desencarde nunca, nem com a kiboa mais poderosa do mundo. arrotou e, enquanto bebia água na boca da garrafa plástica, ao pé da porta da geladeira, proferiu um elogio:

tava até boazinha, essa canja.

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