gestei a autodescoberta

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gestei a autodescoberta. estou a parir uma mulher que sabe todos os detalhes de como se mutilar sem sangue algum saltar das veias, que equilibrou sem muito êxito uma tempestade de sofrimento sem nenhuma significação biológica: não há remédio pra justificar essa dor e essa tristeza. não houve.

amanhã iniciarei uma coisa completamente diferente de tudo o que fiz. eu quero assim e sei que serei demasiadamente capaz de fechar essa porta, por mais que eu saiba – bem lá no fundo – que há frestas nessa passagem. não me sinto sozinha em nenhum instante, mesmo tendo ela, minha escolha de vida a duas, em um outro estado da federação.

assinei um contrato comigo mesma e se, por alguma burrice, descrença, idiotice, melancolia, soberba e audácia, duvidei da existência de deus, agora não cabe mais. porque tudo agora é além do amor, isso, essa coisa que ultrapassa a plenitude das sensações.

– O que se consegue quando se fica feliz?, sua voz era uma seta clara e fina. A professora olhou para Joana.
– Repita a pergunta…?
Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros.
– Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi.
– Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? – repetiu a menina com obstinação. (…)
Clarice Lispector em Perto do coração selvagem

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