a maior tecnologia, a mais escassa em nossos dias: cuidado com o outro

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Toda dor tem urgência e a gente sempre acha que vai ser mortal: comigo não foi diferente quando cruzei a Avenida Padre Cícero, do Crato ao Juazeiro do Norte para ser atendida no Hospital Regional do Cariri aos prantos e com aquela latejante fisgada no lado direito da barriga sinalizando uma crise de vesícula.

Não faltam elogios ao pronto-atendimento de um hospital que é referência na região sul do Ceará: das pulseirinhas coloridas que rotulam o nível de gravidade, à atendente com tablet’s moderníssimos a ‘adivinharem’ meu nome antes mesmo que eu chegasse à porta do consultório médico. A máquina de ultrassom super disponível, com o resultado pronto em dez minutos.

Nada se compara a maior tecnologia, a mais escassa em nossos dias: cuidado com o outro. E foi justamente, em meio ao caos de um amontoado de médicos, enfermeiras e assistentes que ela, aquela senhora cubana, negra, no alto de seus cinquenta e tantos anos, com sotaque carregado me olhou nos olhos, por entre os óculos, tocou no escalpe acoplado ao braço perguntando se estava doendo(ela achava que estava mal colocado, meio inchado). Explicou meu diagnóstico e me perguntou se eu tinha medo de enfrentar a cirurgia para a retirada da vesícula.

– Tenho não, doutora, é que com minhas alergias medicamentosas, nunca ninguém se atreveu a fazê-la.

– Pois eu faço! Vamos marcar?!

– Vamos demais! A senhora é cubana?!

– Percebeu pelos atropelos da língua?! – Perguntou sorrindo largo.

– Não, percebi pelo cuidado.

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