desligando o piloto automático

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tinha pressa e era urgente. tudo pra ela era muito urgente. cruzou a cidade sob duas rodas. o vento a sacudir o cabelo, açoitar-lhe o rosto. as coisas todas atravessando pelos poros da pele dela. num fim de tarde urgente. porque tinha que parar de doer. porque tinha de ter clareza. porque ela precisava ser mais forte do que tudo. ela era mais forte do que tudo. as avenidas que sempre sorriem quando ela passa em seus dias azuis, não mais sorriam pra ela: havia uma verdade revelada entre carros e pessoas. um trânsito tão caótico dentro dela. uns atropelamentos, ultrapassagens, abarroamentos. o céu em tons de rosa e ela com a cabeça protegida. pensou que a vida era mesmo essa coisa deliciosa de percorrer a cidade numa moto. “vá ligeiro, mas vá direitinho! o senhor me entende, né?! eu estou numa situação em que não posso morrer! não posso morrer agora!!” as pessoas nas calçadas, nas faixas de segurança, nos transportes, os desastres, os semáforos, a paisagem, o itinerário, homens trabalhando na pista, redução de velocidade, sirenes de ambulâncias, limpadores de pára-brisas, acelerador. vida correndo pelas artérias da cidade. às vezes tudo junto, às vezes você está sozinho na faixa da esquerda. percebeu que a travessia de todas as coisas por seu corpo é mesmo essa vida atravancando a alma. se ela cai da moto, é paixão.

a gente vai passando por essa vida mesmo muito desprotegido. capacete devia ser era no peito.

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